Seguidores

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Seres Alados - São Gonçalo do Rio das Pedras - Serro/MG


Nova Iorque

Já neva por aí, ao menos é o que os repórteres dizem
Vejo no plasma a neve branca cair, dificultar o trânsito
Já não posso esperar quando o tiê irá pousar em meu ombro e dizer: voa
Caio como flocos congelados, mas em teu coração sou o pássaro que te fala amor
Não bico, você partiu a muito tempo
O relógio derrete desde então como um parafuso perdido, como o cerrado forte
Os tentáculos de um sol agarrando nossas cinturas e nos dando um caldo de mar
Em tua boca uma estrela, o sorriso da felicidade
Vejo você jogando buquês de pétalas douradas no Central Park
Um banco e a neve
A flauta de Pãn, seres alados a te fazerem carícias
Como um anjo deixou cair uma pena
Vermelha
Na neve de Nova Iorque.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Casario Histórico - Diamantina/MG


Coração

Tudo agora é separação, hóstia, pétalas de rosa caindo do céu sobre a copa das árvores da floresta
Saudade, advérbio
Não há feno de palha onde Hurricane possa descansar, travesseiro
Solidão, adjetivo
Longe de meu amor é como estar distante das pedras de Itabira, puro ferro
Pernas que passam, pinheiros brasileiros quase azuis
É novembro, seu primeiro dia chega com sol
Meus olhos são dois pólos de pura energia a disparar ondas de calor
Por dentro sou um frio extremo, sou a chave de uma porta escondida em eras medievais
Bates, bates, não sei abrir
Se Maria for à África cuidar de doentes, como ficarei sozinho?
Havia algo naquele coração, impossível de decifrar
Caridade, madre
O céu é alto como uma palmeira
Vellozias gigantes
Pacientes em um leito de hospital, feridos pelos estilhaços de guerra
Coloco a chave no contato e o bólido ronca, quer partir
Mas a alma pede calma, quer cicatrizar partes que não se juntam
Carne carne, plaquetas, glóbulos brancos
Tiê-vermelho
Um passe
Lavadeiras-mascaradas tecem fios, objetivam costurar peitos rasgados
Nasce um filhote no ninho, sem fotografia
Ando, ando, canso as pernas, não chego perto de ti
Afasto-me da porta imensa, medieval
Tento regredir aos Domínios da Águia figurada
Alimento teu espírito com castanhas de caju, se houvesse paixão te daria
O sol do deserto com seus raios de tentáculos
A volta pelos muros de Jerusalém com os pés descalços possibilitou vislumbrar a fenda nas pedras
Salvastes Anish da fúria Cruzada
Percorrendo a Serra do Espinhaço encontraste alento, pedras e fungos
Os olhos da beata permanecem distantes
Meus olhos disparam ondas incessantes pelo litoral brasileiro, Bastogne
Onde outra hora se deu o desenlace do corpo ao perispírito, através de fagulhas dardejantes
Sons de dor, distante de meu amor, em pátria longínqua
Uma flecha envenenada que atinge em cheio o coração
Seria o mouro?
Ou Cupido?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Orquídea - Distrito da Lapinha - Serra do Cipó/MG


Relato


Velho Zé, abençoe meus passos, meus pés de vinte e nove quilômetros
Jogue água-benta, senhor padre
Estoure rojão
Ontem era julho, São João
Hoje é perto do final do ano, haverá réveillon
Não há amor algum, apenas barba crescida, tentativa
Beijo e só beijo, nada mais forte
No íntimo a espiritualidade penetrou
Borbulhou como água fervente
Reza
Ajoelhado, Ave Maria Cheia de Graça, o Senhor é Convosco
Bendita sóis vós entre as mulheres
Bendito é o fruto de teu ventre, Jesus
Rogai por nós Nossa Senhora do Rosário
Pelos que agora passam fome
Os que estão em penitenciárias
Os que sofrem os efeitos deletérios do terremoto
Por todos os tiês-sangue que se encontram na floresta agora, sem proteção contra predadores
Pela princesa em Nova Iorque
Pelas meninas que estão nas estradas do Nordeste
Pelas beatas de Belo Horizonte
Pela santa do Rio de Janeiro
Por aquela que teve seu filho no leito do Rio das Mortes, em Goiás
Pela fêmea ferruginosa do tiê
Vai beijo
Volta amor
Para o quarto de hotel iluminado
Uma aranha armadeira passeando na varanda , a rede estendida
O brilho da lua faz cócegas
Excita
Subi ao cruzeiro, observei tuas mãos arqueadas
Virei metade de um homem
Passei pela praia
Praia
Retirei a casquinha da mordida do carrapato, saiu sangue
Beijei tua boca
Não fui dormir
Tomei leite com groselha, pus brincos de prata
A lua
Te vesti um alforje para a cruzada, você saiu louco, procurando a moça de cabelos vermelhos como fogo
A Bela Louca
Vendei teus olhos
Te beijei suave
Apanhei com tapas
Saquei a espada, cutuquei Hurricane, o cavalo
Joguei cigarros na lápide de Jim Morrison
Estendi uma rede na frente do bangalô
Subi a Lapinha
Vibrei com a lua e o grito das pessoas que observavam a cena.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Cachoeira do Tabuleiro - Conceição do Mato Dentro/MG


Sepultamento (A prosa, a fênix e o Homo spiritualis)

Venta muito na Ilha de Santo Amaro
Um vento gélido, cortante
A chuva bate pressurosa em minha barba grande
Branca pelo tempo
Pelos longos anos passados aqui
Na Ilha de Santo Amaro
Santo que desconheço
Há tantos, não?!
Numerosos seres que prestaram seu trabalho com amor e resignação
Neste orbe pouco evoluído
Ouço desde já os rumores de guerra
Os mesmos que as profecias nos alertaram há dois mil anos
João, transportado aos páramos celestes, escreveu as recomendações
E eles virão, para nosso próprio adiantamento moral
Lindo meteoro a trepidar na atmosfera
Tal qual as gotas da torneira da cozinha, nunca consertada
A caírem na louça suja e bolorenta, da idade de minha barba
Dos galhos secos das rosas no jardim
Enfastiado de tanta prosa
Triste pelas poesias sepultadas, que nunca renascerão
Arquiteto um plano
Penso, penso, penso...
Decido morrer no mar
Pouco me resta
Antigos retratos, um chevrolet camaro vermelho de brinquedo, presente de meu pai quando completei três anos
Um pião de madeira, com o bico quebrado
A escrivaninha, a pena amarelada, o tinteiro vazio...
Nada mais me resta, a não ser o mar
Mas também sinto o desejo, apesar da depressão que me assola, de que não seja qualquer mar
Relembro então de meus tempos de jovem
Da sala irregular da Universidade
Do azul-marinho da lousa
(Pedra tumular rasa, que assenta sobre a sepultura)
Das cadeiras azuis de plástico, de cor profunda
Do silêncio que nunca imperou
Lembro de um senhor que andava de muletas
Estampava em sua fisionomia um coração bom
Queria indagar-lhe quem era, o que pensava sobre a sociedade, a cultura, a caridade, a paixão
Um dia quis ajudar-lhe a vestir sua mochila, o que tentava fazer com dificuldade
Mas não soube como e fui embora
Nunca esqueci o dia em que o professor falou da existência dos sete mares do planeta
Alguns formados há muito tempo, outros mais recentes
Falou também:
“- Vai João!
Vai fazer poesia na vida.”
Inerte, nada fiz
Talvez hoje...
Decido então navegar, apesar da imprecisão
Escolher o mar mais bonito e nele descansar
Antes deveria conhecer todos
Remar
Remar
Só então naufragar
Meu barco caiçara, junção de canoa indígena com a popa portuguesa, chama-se Beagle
Lá está, na praia do Perequê
Anuncio por toda a Ilha de Santo Amaro o grandioso intento
Na data de partida todos se encontram a beira-mar
A arraia-miúda, o Prefeito, com seus longos bigodes afinados e o pince-nez de ouro
O Governador da Província, com sua calvície reluzente
Até mesmo o Imperador e a Imperatriz encontravam-se presentes
Proferindo ele um inflamado discurso, o qual dizia que nunca, na história deste Império, ninguém ousou realizar semelhante feito
Não dispensei muita importância, por achá-lo incongruente com os ideais antes prometidos
Na areia estavam também banqueiros, letrados, o Alferes-Mor, o Ouvidor, o Padre Domênico Rangoni
Todos diziam o último adeus
E assim parti para o infinito
Na noite da oitava lua adentrei o primeiro mar
Soprava uma brisa quente, quase um noroeste
Estava no mar de Copérnico
Senti o coração pulsar mais forte
Estaria lá mais próximo do centro do Universo?
Diziam ser o centro de uma grande bola de fogo
A espalhar sobre o planeta dos sete mares imensa luz abrasante
Fonte de vida e entendimento
Diziam até que a Terra girava ao seu redor, de acordo com o Heliocêntrismo
Percorri longa vastidão, mas nada encontrei
Regalava-me com a lua maviosa
Esta sim eu conhecia
Sabia que havia sido formada pelo choque de um grande meteoro com o Planeta Azul
Tão grande quanto o que se aproxima agora
Por isso os pólos do orbe são achatados e o satélite tem a mesma composição da matéria encontrada na Terra
Remo
Remo
E nada
Talvez o Mestre, com seu poderoso séquito de seres benevolentes e iluminados, que lá moram
Tenha levado o centro de fogo para longe
Talvez volte
Poderosos ventos insuflam minhas costas
Empurram o barco para o incerto
E navego rápido
A barba grande
Os lábios ressecados pelo sal
A companhia dos albatrozes
As unhas grandes e sujas
Espinhas dos peixes pescados pelo caminho
Degustados crus, ali mesmo
As reflexões não me assolam
Tudo é calmo e perfumado
A simbiose com o mar, o vento e o tempo
Faz-se completa
Relembro então sobre a promessa do surgimento da nova raça humana: o Homo spiritualis
Entro no mar de Darwin, o segundo
Evolução
Do Homo sapiens sapiens em mim nada há de restar
A matéria densa, o sentimento instintivo
Animalesco
O orgulho, o egoísmo
A alimentação carnívora, a guerra
Minha comunicação difícil, não-universal
A tudo desejo loucamente extirpar
Alimentar-me apenas de água e raios solares
Caminhar mais rápido que a luz, por longas distâncias
Sem qualquer barreira, impedimento
Comunicar-me telepaticamente, linguagem que todos entendam
Radiar apenas o amor, na sua forma mais pura e ampla
Quando?
No fundo do mar de Darwin?
Capitulando estes longos anos, quão caritativo fui?
Quão desprendido da matéria estive?
Sinto apenas vergonha de morrer aqui
Neste mar cristalino, a emanar eflúvios de evolução
Devo remar
Encontrar o mar adequado à minha condição decadente
Remar
Remar
Preparo meu concentrado ácido de cascas de limão e flor-de-lis
Adentro sem delongas o mar de Freud
Choro copiosamente com a aurora boreal
As estrelas cadentes, os diamantes reluzentes espalhados sobre a areia salgada
O silêncio
Bater de asas dos peixes-voadores
Eclipse lunar
(Tudo é noite)
O impossível desejo de evolução
Tantas e tantas vezes chamaram
Nunca fui e jamais irei
(Nunca!)
Internamente, eu
(O vazio de uma vida)
Alucinado, vou me embora
Demente
Remo
Remo
Remo
(Remo até não poder mais)
Já estou na trigésima terceira noite
Aproximo-me do mar da Informática
Atiro ao longe o astrolábio, o camaro vermelho, o binóculo e o GPS
(Nada mais me resta!)
Adiciono um pouco mais de fumo em meu cachimbo de nogueira
Fumo avidamente
Decepcionado com a feiúra deste mar
Dos polvos high-techs
Das aves de metal
Vento digital
(Empurra-me para longe, suplico!)
Durmo (não sonho)
Acordo com a visão de um grande cogumelo de fogo
O estampido ensurdecedor
São seres humanos testando bombas atômicas no mar Biológico
O cheiro de destruição a tudo invade
Vislumbro a psicosfera da Terra ser destruída
Sinto o câncer invadir minha pele queimada de sal
Ao redor do Beagle, clones de tubarões idênticos cercam e acuam
Arraias fluorescentes emanam intenso brilho
Fetos mortos bóiam ao lado de pedaços de cordões umbilicais
Pacotes de fortes fertilizantes são levados pela maré
Enquanto espigas de milho geneticamente modificados pairam na superfície da água
Remar é preciso
Necessito urgentemente afastar-me deste local
Desfaleço
Recobro as forças para remar
Avisto ao longe uma ilha
Repleta de lêmures, dragões-de-komodo
Tentilhões, aves-do-paraíso
Tiês-sangue, palmitos juçara
Ora-pro-nobis, ar limpo
Água doce, gaivotas
Enormes robalos, siris de um azul sem igual
Verde mar Ecológico
Aqui, neste recanto de paz
Onde a natureza fervilha, quero morrer
Mas antes necessito conhecer o mar das Mulheres
Comparar, ter a certeza de que meu corpo fatigado irá descansar bem
Já ao me aproximar, sou acolhido pela inconstância das ondas
Chacoalhando a proa, todo meu ser
Flores das mais variadas espécies e matizes flutuam
O perfume é inebriante
As formas curvilíneas das nuvens embalam os mais recônditos desejos
Relembro da minha falta de sorte com as mulheres
Dos amores imperfeitos
O desprezo por me atirar incauto
O velho jargão, quem eu amei nunca me amou
Quem me amou, eu pisei
Frustrado por não ter uma família, uma rotina normal
Preparar o café cedo, na casa do campo
Para a esposa querida que saía para trabalhar
Enquanto o dia-a-dia era gratificante
Cuidar dos filhos, levá-los à escola
Preparar o almoço, a janta
Lavar, passar, bordar com a lã alva das ovelhas perdidas    
Nada disso tive
Gostava mesmo das putas da zona portuária
Com o seu amor fácil
Seus corpos em movimento
O não-beijo, a incompletude
As paixões fugazes
Mamilos rígidos, dourados
Navego e penso
Saudades de Isabel
Onde estará agora?
A última visão que tive com o olho esquerdo
Foi Vênus piscar no céu
De repente, não mais que de repente
Um albatroz, em vôo despretensioso
Investe sobre meu rosto com grande velocidade
Em uma bicada voraz arranca minha vista
Que sangra
Sangra
Sangra
(Hemorragia)
Vã pretensão navegar e fazer poesia
(A poesia morreu!)
Já é hora de voltar ao mar Ecológico, o Paraíso
Lá findar o que não se completou
É necessário abandonar o mar das Mulheres, não deixar as reminiscências putrefarem a mente cancêriginosa
A dor torna-se cada vez mais insuportável
A hemorragia é intensa
Com todas as forças
Remo
Remo
Remo
As noites passam longas
Desconheço os mares
Desfaleço
Meu espírito cansado, lentamente se desprende do corpo
Ali mesmo, em meu veleiro de sonhos
Mar nenhum me terá
(Nenhum!)
Já no plano espiritual
Observo a chegada do Beagle
Carregando valente a matéria em decomposição
Na praia, Ilha de Santo Amaro
Grande multidão invade as areias
São txucarramães, tupiniquins, bororos, apóstolos, letrados, coronéis
Árcades, escultores, xilografistas
Improvisam rapidamente um faixa, com os dizeres:
“Seja bem-vindo, Homo demens”
O vento forte espalha ao léu as páginas das poesias escritas no barco
Que ao tocarem o mar Incendeiam-se, viram pó
Voam para longe
Com a aparência de uma fênix
Venta muito na Ilha de Santo Amaro.